Proponho-me grafar sobre o que tanto reflito: um tema que, de tão presente, finge-se não visto e, de tão falado, já carrega um estigma. Falar sobre o machismo ou sobre o feminismo (ou qualquer substantivo que o caiba) gera reações que devem ser, previamente, levadas em conta.
Trata-se de uma questão inegável, cuja discussão é um risco: risco de obviedade, risco de sustentar um certo complexo de inferioridade. Risco de fazer-se qualquer reação demasiado agressiva ou genérica.
Sei, porém, que o risco é, por si mesmo, a confirmação da necessidade de se comentar o assunto. O feminismo, os discursos de reação ao machismo, carregam em si a própria força de dominação entre gêneros. Se o discurso é feminino, implicitamente, vozes masculinas o censuram. Quer dizer que os preconceitos, em si mesmos, são o fundamento de muitos discursos.
Do Paraná à São Paulo. Do extremo sul do Brasil ao Rio de Janeiro. Dos bailes de alta classe às esquinas escuras. Da Academia à lida diária dos serviços domésticos. Na internet, nos bares, nas rodas de chimarrão. Nos protestos, reuniões, nos desfiles públicos. As mulheres, teoricamente, podem fazer tudo o que quiserem, têm atuação e circulação livre. Eis que as diferenças de direitos foram derrubadas...
Então, o que ainda falta ser dito sobre este assunto? O que mais nós, mulheres, queremos? E se fosse perguntado ao homem mais convicto: qual a sua posição?
Devo arriscar, porém, em dizer que as barreiras persistem e habitam n'outra ordem. No lugar da imagem que nós, mulheres, fazemos de nós mesmas. Mas não somente aí. Também nas práticas sociais mais sutis, em interações simples, trabalho, relacionamentos amorosos ou sexuais. Não se pode negar que haja a disputa entre homens e mulheres – as relações de força, observadas e sentidas, diariamente.
Não sendo, pois, explícitas, são íntimas. Nos espaços cotidianos, no corpo e no que se faz com ele. As mulheres costumam se vangloriar do espaço que conquistaram. Mas o que podemos dizer do quanto tem aumentado a obsessão pela beleza artificial, devido a qual mulheres torturam-se, mutilam-se. Até mesmo mulheres independentes, que ganham dinheiro, sentem-se mal pela própria idade ou naturalidade da sua aparência. E o que dizer do comportamento mulher-objeto que a ilusória liberação sexual trouxe: qual a vantagem da exploração sexual que a maioria das mulheres sofrem, sob o slogan da liberdade?
A desigualdade pode ser sutil, mas continua sendo poderosa.
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