Lá: entalhada sobre uma textura áspera, eu me via esculpida. Porém havia algum movimento sutil na procura de um estado mais confortável do braço, o leve roçar dos dedos dos pés, tão contido que somente olhos atentos enxergavam. O ruído constante do local não parecia perturbar, pois minha face aparentava muita calma e um tom até solene. O meu olhar oscilava entre brilhos.
Pelo que pude perceber, eu era como que carne, porém orquídea - ao chegar perto eu parecia incrivelmente imóvel e ao mesmo tempo oscilante. Ouvi que lá eu era uma passagem, que eu estava transcendida. Meus cabelos roçavam, no que minha pele parecia ter um deleite sutil. A cada sopro, um suspiro.
Faço deste que lê um texto morto, contínuo e nulo, ausente de fogo ou volúpia transbordante; mas uma prece ao vácuo que me toma vertiginoso. Desloco qualquer coisa para um local desconhecido que jamais reconhecerei. Por isso lamento ao presenciar-me assim, sem glória. O texto apavora pela imensidão necessária que não pode conter. Desejo salvar-me dessa violência que é contra mim. Violência voluntariosa que aponta cada vez mais flechas.
Onde está a alavanca ao céu desejado? Céu plantado em mim que me ocupa imenso. Não tenho sequer calma para aceitar o prazer. Não há deleite, somente repouso nesse leito branco em que se encerra o verbo inútil e inesgotável, o verbo que me ilude e me agride.
Era plena a passagem de um pólo ao outro, o estado bruto da matéria me ancorava. Ah... e quanto distanciamento ainda me aprisionando! Mas o sagrado atribui-se de tantas maneiras, mesmo se não houvesse algum interesse válido... Tudo em desuso constantemente consumido. Qualquer imagem está indubitavelmente morta, porque a visão é posterior ao tempo. Qualquer raridade, desejo-a, meu corpo quer o raro aroma ou o que valha. A mente, esvaziada, calcifica-se. Vislumbro Monstruosidades. Minha fortaleza se levanta, mas não conhece o motivo. O monstro apenas ama. Sei que vou cair e o ar faltará. Meus segundos vitais escorrem, mesmo assim não pretendo me entregar ao desconhecido. Apenas frutificar.
Enfim, tento reconhecer o seu desamor, pura soberba diante da pureza, tua alma exangue, um ego tardio mas voraz. E qual perda poderíamos evitar, se o tempo consome, imperador impiedoso?
Nunca menti e isso me torna fraca. A única redenção possível está na mentira. Mesmo assim, não possuo verdades, murmuro, apenas, maledicências.
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