domingo, 27 de junho de 2010

Velar-te

No teu lar a luz se fez longínqua, perdurando por toda a noite, pois o vazio que fitava meus olhos, partindo dos seus olhos fechados, não me flagravam sono, caminhavam oblíquos ouvindo a chuva.  Dentro da sala, sentia-me parte de muitos que, por reflexo, eram todos iguais e nós também.

Bateram na porta enquanto ela se debruçava sobre o seu corpo sendo, também, seu enfeite, a sua coroa. A faixa de pêsames dizia-me algo maior que eu  não sei explicar; a beleza dela triste, o rancor  por não ter feito, por ter morrido junto.

Eles entraram e distribuíram sentimentos, conforto. Mas todos eram pequenos demais para compreender a morte, não havia metafísica ou respostas brilhantes, apenas uma reticência  mórbida.

Você daquele jeito, prostrado, exalando o aroma das flores constrangia-me. E sei que também a ti.

Era o último adeus diante de um corpo que perderia a beleza, o grande amor daquela mulher decompondo sob o  concreto.

- pausa-

 Sinto ultrapassar os meus próprios ossos e  transcender a minha carne. 
 Sou vertigem diante da tua vida interrompida.

Quase madrugada e todos já se foram. Pela manhã você encontrará a lápide e irá além da sobrevida sob o sol das ilusões diárias.

Um sono pesado invade o meu corpo, no silêncio do velório, tu me chamas através de uma agonia estática  que comunica o desespero da tua alma - eu posso vê-la através dos teus olhos fechados.  O cheiro das flores e das velas invade o meu olfato e as minhas roupas; o nosso lar perde o cheiro de lar e todos os móveis, papéis e discos  também morrem contigo.

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