Mexendo em alfarrábios mofados de poucos anos atrás, encontrei um papel com um trecho de Clarice Lispector transcrito. Transcrever, à mão já foi, para mim, um exercício poético: pensava eu, se copiar com minhas mãos essas palavras, talvez eu sentisse a força daquela alma poética, enfim... agora transcrevo novamente, imaginando que haja algo mágico nesta folha encontrada...
"Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito. Mas eu desconheço as leis do espírito: ele vagueia. Meu pensamento, com a enunciação das palavras mentalmente brotando, sem depois eu falar ou escrever - esse meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão, sem palavras, do pensamento - palavra que se seguirá quase imediatamente - diferença espacial de menos de um milímetro. Antes de pensar, pois, eu já pensei. Suponho que o compositor de uma sinfonia tem somente o 'pensamento antes do pensamento', o que se vê nessa rapidíssima idéia muda é pouco mais que uma atmosfera? Não. Na verdade é uma atmosfera que, colorida já com o símbolo, me faz sentir o ar da atmosfera de onde vem tudo."
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