quarta-feira, 3 de março de 2010

A Torre de Marfim Vigiada

Após uma polêmica quente no grupo de pesquisa do qual fiz (e, informalmente, faço) parte no IEL/Linguística da UNICAMP, entre mortos e feridos, decidi fazer uma postagem aqui, além de anexar trechos da discussão. Somos um grupo de pesquisa destinado a estudar a Pragmática e a Exclusão, bem como a formação das identidades contemporâneas dentro das práticas de linguagem - e do qual a mais nova celebridade faz parte.

Muitos linguistas atormentaram-se com a presença de Elenita no BBB10 e muitos dos seus amigos, também linguistas, atormentaram-se com as críticas feitas a ela. Depois de meses em suspenso, agora a própria vem a se manifestar a respeito do debate que sua "fama" causou.

O ponto nevrálgico da discussão foi, sem dúvida, a exposição da 'imagem doutor em linguística' num programa tão já desprezado por muita gente. Mas, certamente, não é esse o ponto interessante, já que nem sequer sabemos qual seja tal imagem, nem mesmo o motivo de desprezo que todos têm pelo tal programa Big Brother Brasil.

O que me impressionou, porém, foi o tom de algumas respostas da Elenita e seus amigos, que fugiram do debate e partiram para acusações morais aos comentadores. Eu, particularmente, instaurei a polêmica em nosso grupo e fui agredida - indireta e figuradamente, como bons linguistas conseguem fazer ao jogarem com palavras - por conceitos como "mal-amada", "cartesiana", "pseudo-resistente" ou "imoral". Mas, também fui socorrida por outros pesquisadores e compreendida por alguns.

Por que isso é impressionante? Pela impossibilidade da crítica. Um ponto da argumentação da "torcida acadêmica pró-Elenita" (torcida que, devo enfatizar, não tem rivais) seria de que nossas críticas não compreenderiam que um intelectual tem o direito de estar na "massa" e que somos arrogantes por demais ao nos considerarmos superiores e residirmos na Torre de Marfim da academia. Mas a crítica não é essa, ao intelectual Elenita em si: pensarmos criticamente sobre o problema não deveria significar que somos "cartesianos" e, no momento que as críticas surgiram, foram todas nomeadas, pela "torcida", dentro de uma categoria: Elitistas.

O grande problema é ignorar a conjuntura social em que vivemos, na qual os intelectuais, sim, não conseguem pagar seus aluguéis e caminham por corredores escuros e mofados, com suas míseras bolsas de estudo. Num país em que ninguém valoriza a pesquisa e o pensamento, a Globo é a empresa que movimenta o maior número de cifras e decide o destino político e de comportamento das "massas", que não são culpadas ou inferiores, mas são tornadas massas pela própria tecnologia televisiva e suas políticas. Onde está a elite? Afirmo, sem sombra de dúvidas, que a elite é o BBB10, a elite são as celebridades e todo o luxo e fetichismo que o mundo da fama envolve. Não estamos na Torre, nós somos uma voz abafada e que, na mínima tentativa de se manifestar, é boicotada por classificações excludentes.

Os "acadêmicos unidos pela nossa Lê" formam um bloco bastante habilidoso na arte de criar argumentos, mas extremamente ingênuo quanto ao sistema de liberdades em que vive - optar por ver BBB ou receber centenas de e-mails não deveria ser um argumento forte para silenciar a crítica. A crítica é a crise, é o abalo e não a Dicotomia. Ser dicotômico é comparecer de forma tão irresponsável ao debate.

A polêmica não é sobre a "nossa colega celebridade", mas sobre o conluio argumentativo que sempre brinca com os termos para inventar lugares de autoridade.

abaixo, seguem os emails da discussão

1. RESPOSTA ELENITA


2. Lista Rajan:


[identidade_rajan] Elenita no BBB

Para:identidade_rajan@yahoogroups.com

  Turma!

A Elenita - sim, a nossa Lê - está no Big Brother Brasil! Depois de o Rajan ser convidado por Caminho das Índias (para uma discussão sobre o tema), eis mais uma integrante do nosso grupo nas telas. 

Parabéns, Lê! A gente nasceu pra ser feliz, não é assim? :-)

Beijos, Daniel.
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sem querer chocar, me senti profundamente constrangida. 
isso é uma práxis do mais puro lixo cultural.

angela
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Turma,

Quanto a Elenita estar no Big Brother, acho que é uma expressão de que podemos eticamente usar nossos corpos, nossa imagem, nossos títulos. Eu também tenho minhas reservas e críticas ao programa e à própria Rede Globo. MAS, até onde eu sei, a Lê defende o que de mais nobre pode haver no ser humano. Ela é militante antihomofobia. Ela traduz filosofia da diferença no mundo virtual e na própria música. Ela não tem medo de usar o próprio corpo e os próprios desejos. Nesse sentido, não penso que ela vá se vender às bobagens que muitas vezes envolvem os participantes daquela casa. 

O Big Brother é um jogo. Há regras definidas, mas Wittgenstein há anos proclamou que é a prática que constitui a regra. Eu não assisto BBB, mas dessa vez vou assistir sim. A Globo está usando o título da Lê como um trunfo. A própria Lê está empregando esse título estrategicamente. Por que não nos permitirmos jogar na cultura de massa?

Lembro de um comentário que ouvi. Uma amiga do doutorado estava fazendo o seu sanduíche na Universidade de Lyon. Ela conheceu outras brasileiras, também em estágio sanduíche, e se aproximou delas. Um dia, uma das colegas da minha amiga ficou chocada porque ela escutava Ivete Sangalo dentro de casa. E fez o seguinte comentário: "ainda bem que a CAPES não concede bolsa pelo gosto musical". 

A grande questão, no comentário da aluna de doutorado incomodada com uma doutoranda em Lyon (!) ouvindo Ivete Sangalo e de tantos que se incomodam com a Lê no BBB é o velho transbordamento do público no privado. Usar o argumento de que a CAPES não deveria dar bolsa a ela é o mesmo que dizer que tudo deve ser público, até o gosto musical - e lembremos que gosto é uma prática socialmente construída. Os usos que minha amiga faz da música e que a Lê faz de corpo e de sua imagem são delas, são privados - e acho que nós, vendo esse transbordamento - ícone da contradição humana, uma vez humanos, temos de apoiar. 

Abraços, Daniel.
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Re: [identidade_rajan] Repercussão na CVL do BBB da Lenita
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 Não quero intervir sobre corpos alheios, mas creio que não seja uma estratégia simbólica tão eficiente, justamente porque sabemos - historicamente - que a indústria de bens simbólicos aglutina e esteriliza a maioria das performances - hipoteticamente autonomas.
portanto, o que fica é sempre o estereótipo de classes, categorias, colocações. Certamente não ganhamos bolsa pelo nosso gosto musical, bem como pelo nosso senso crítico, justamente por isso é que a produção de conhecimento sempre fica manca - esperando 'algo de real' e sinceramente comprometido.
Obviamente que também não podemos negar que o 'intelecto' pode ser usado para qualquer fim - bem como as instituições acadêmicas, os títulos e os currículos. Por isso um Corpo-Doutor- Linguista agregado ao culto da imbecilidade (sem a ingenuidade de que HÁ UM JOGO NO BBB) - pode haver e haverá, assim como médicos, psicologos, faxineiras ou qualquer classe de trabalhador especializado.

ange
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  Oi, Dani e todo o grupo.

Eu aqui quietinha no meu repouso de grávida tive uma insônia e resolvi gastá-la com esse debate. O barrigão cresce; minha menina e minhas idéias se remexem.

Sinceramente, não vejo problema em gostar das pessoas e apoiá-las em nome deste afeto. Ao contrário, sou a favor.
Mas daí a buscar sentido no que elas fazem é um exagero desnecessário. Imagina se toda mãe fosse fazer isso...

O Big Brother continua sendo o que ele se propõe a ser, mesmo a gente conhecendo alguém que foi parar lá. E isso não dá pra apoiar mesmo!
Não há atuação extra-muro, transbordamento do privado e do público, superação de dicotomias ou qualquer coisa que os valha no que existe de pior na televisão brasileira e internacional.
Nem acho que é pra ter. Tô com a Ângela: o Grande Irmão esteriliza e pasteuriza tudo e não vai ser uma pessoa (quem sou eu pra acreditar no indivíduo e sua autonomia a esta altura do campeonato!) , mesmo com a melhor das intenções (seja lá o que isto for) que vai levar qualquer glória e inteligência àquilo que nasceu para nos lembrar que somos todos vigiáveis, controláveis e manipuláveis.

Eu cá com meus botões fiquei foi um pouco triste com tudo isso. Nem pela linguística - na qual eu não acredito - nem pela academia - que é um trabalho como qualquer outro cheio de gente horrível e de gente muito boa.

Fiquei triste pensando no final do filme 1984: o personagem representado por Richard Burton afirma, triunfante, que não há brecha, ninguém escapa do Grande Irmão.

Minha nossa senhora do balé moderno, será que a hegemonia é capaz de abduzir qualquer um com seu canto de sereia? Meu santo antonio do mal gosto musical, vamos todos em direção a este canto como se todos os cantos fossem a mesma música?
Que o Grande Irmão nos vigie e diga quem devemos ser e como agir parece hoje cada vez mais inevitável, mas que caminhemos felizes para os espaços em que ele nos veja melhor me parece assustador!

Santa encruzilhada, Batman! Para onde correr?
Nada há para resistir? Temos que aceitar tudo e dispor nossos corpos e nossos discursos para justificar a inevitabilidade da hegemonia? Como o Smith de 1984, seremos ingênuos a ponto de achar que nos escondemos numa pequena brecha das nossas boas intenções? Ou pior: acharemos que nada há para resistir, que o Grande Irmão está cego e nós é que o enganamos?

Eu que nunca vi o Big Brother - nenhum - nem gosto da Ivete Sangalo, fico triste ao ler que tudo parece igual. Que tanto faz gostar de uma coisa ou de outra, e que resistir a esse mar de falta de critérios é o mesmo que produzir dicotomias infindáveis.


Por falar em dicotomias, me lembrei de uma passagem: "o indecidível abre assim o campo da decisão ou da decidibilidade. Ele clama a decisão na ordem da responsabilidade ético-política."

Com um pouco de medo de usar o exemplo pessoal - e ainda mais quando tantos afetos estão em jogo, tenho que dizer que foi o que me chamou a atenção no vídeo de inscrição da Elenita; ela pergunta ao dizer que decidiu se inscrever no Big Brother: "por que não?".

Eu só queria saber porque sim.


Beijo beijo

Joana



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  No fundo, Drica, fico pensando no Deus das pequenas coisas, aquele que não vai pras grandes manchetes, nem pras pequenas. Eu não gosto de Big Brother nem de Ivete Sangalo. Mas respeito e defendo com o mais sincero e virtuoso de mim o direito de as pessoas escutarem, assistirem e participarem do que lhes apraz. 

Respeitar e apoiar isso, pra mim, significa que Ivete Sangalo (ou Big Brother) não é mau gosto. É gosto. Pertence a outra classe, a outra forma de vida. A mesma "Baba Baby" que era tido como lixo na boca de Kelly Key vira bom gosto na voz de Maria Gadu. Na cabeça de alguns.

E eu já estou me preparando pra votar pra Lê sair do Paredão!

daniel


pense nisso...