quinta-feira, 8 de abril de 2010

Resenha: CLARISSA, Érico Veríssimo

VERÍSSIMO, Érico. Clarissa. Ed. Globo, SP 1997



O Romance carrega os tons da puberdade, a cor primaveril da adolescência. É um texto com desdobramentos psicológicos que, sinestesicamente, sugere profundos estados de ânimo de uma quase-moça brasileira da década de 30. Uma visualidade poética constrói a narrativa pictórica da indefinição entre a infância e a idade adulta. Clarissa é uma menina que desperta para a juventude descobindo sua feminilidade, um despudor alegre que, aos poucos, vai se definido como papel social. Indefinível e misteriosa, a personagem aparece como uma efusão lírica de instantes sagrados no cotidiano sóbrio e luminoso de um ambiente doméstico; sugerida em discurso indireto livre onde se expõem suas sensações e imaginações. Desdobramento da estética modernista - Romance de 30 - descreve tonalidades, brilhos, aromas para evocar a essência de um mundo indefinível entre o quase estar adulto e ainda ser criança. A voz do narrador é constantemente interrompida pelas palavras da personagem.


Impulsos naturais de desejo e curiosidade estão sendo moldados pela dimensão sócio-histórica do estreito território da pensão da tia Zina com seus moradores pequeno-burgueses e o colégio em que Clarissa estuda, "com suas sacadas de ferro, o seu ar de casarão assombrado". Habita na garota um paradoxo: enquanto a época de descobertas lhe permite um olhar infinitamente amplo sobre o universo, são-lhe impostas restrições morais que condicionam progressivamente este olhar através de exigências de comportamento dentro da dinâmica, inerente às formações sociais e discursivas de um determinado grupo. Entre as obrigações na Escola e na Pensão de Zina, Clarisse é proibida de ter amigas da mesma idade, podendo apenas satisfazer-se com a imaginação, os aspectos sensoriais, os cheiros, brincadeiras, vozes, sonhando num mundo particular. O sonho, enfim, entra em conflito com a realidade e os mistérios do mundo adulto aos poucos se revela, causando dor, medo e decepção: a hipocrisia do casamento e a injustiça da doença, da pobreza e da morte.

-Boba! Quase todos os homens têm amantes...
A vida tem segredos terríveis, a vida tem coisas que apavoram
mesmo que a gente não as compreenda bem claro. (p. 82)


Tornar-se mulher não é uma transformação que se dá somente no corpo de Clarissa, este é sim um processo que se realiza no olhar dos outros sobre ela, o que consequentemente lhe reservará os lugares sociais onde conterá seu espírito. O feminino é, portanto, uma construção representada por símbolos, tais como o sapato de salto alto - um objeto desejado por Clarissa, considerando que traria um ar respeitoso de moça, para ocupar outro status.

Dentro de pouco tempo tudo vai mudar. Mamãe já
prometeu em carta: Quando fizeres quatorze anos eu te dou
licença para botar sapato de salto alto. (p. 16)

O imaginário infantil dos contos de fada atua como um filtro através do qual Clarissa interpreta o mundo, confrontando-se com o real ou servindo de espaço de realização dos sonhos, do amor. Até mesmo a concepção do amor está atrelada ao imaginário cristão. 

Um choque para a personagem é deparar-se com o adultério e a diferença racial; o que sugere a realidade heterogênea, diferente do que seu pequeno mundo demonstrava. O despertar da sexualidade envolve o confronto de um imaginário romântico e cristão com outra realidade muito mais diversa e misteriosa. Provavelmente sejam estas algumas das razões pelas quais a moça adota como fuga os contos de fada.

Este romance nos envolve num espaço ambíguo, em que a dor e a alegria alcançam seus extremos, o adolescer é um instante mágico.

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